Uma história de futebol (de Paulo Machline)

 

Uma História de Futebol    

Gênero Ficção

Diretor Paulo Machline

Elenco José Rubens Chachá, Marcos Leonardo Delfino

Ano 1998

Duração 21 min

Cor Colorido

Bitola 35mm

País Brasil

 

 

Baseado numa história real, um episódio da infância de Pelé - uma final de campeonato. A história é contada pelo melhor amigo de Pelé, agora um homem de 60 anos.

 

Ficha Técnica

Produção Paulo Machline, Tony Gil Fotografia Lito Mendes da Rocha Roteiro José Roberto Torero, Paulo Machline, Maurício Arruda Edição Mark DeRossi Som direto Renato e Valeria Calaça Direção de arte Victor Lema Riqué Trilha original Marcelo Zarvos

 

Prêmios

Melhor Curta - Júri Popular no Festival de Brasília 1998
Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado 1999
Melhor Diretor no Festival de Fortaleza 1999
Melhor Fotografia no Festival de Fortaleza 1999
Melhor Curta no Festival de Ourense (Espanha) 1999
Melhor Curta no NY Intl Short FilmFest 1999
Melhor Curta no Silver Elephant 1999
Melhor Ator no Vitória Cine Vídeo 1998
Melhor Filme de Ficção no Vitória Cine Vídeo 1998

Festivais

Festival de Chicago:
        . Prêmio Especial do Júri
Festival de Nova Iorque:
        . Melhor Drama
Festival de Cinema Infantil de Bombay (Índia):
        . Elefante de Prata
Grande Prêmio do Cinema Brasileiro
Indicado ao Oscar 200
1

                                        
Uma história de futebol


SEQÜÊNCIA 1. FOTO

Depois de um lento fade in, vemos uma foto, quase apagada pelo tempo, de onze meninos enfileirados. Pode haver um lento zoom em direção à foto.

OFF

A coisa mais importante para um menino de 10 anos é o seu time de futebol. O meu era o Sete de Setembro, de Bauru.

Por fusão, ficamos mais próximos da foto, e passamos a um lento travelling sobre ela. Vamos vendo, um a um, jogadores do time. A velocidade da narração deve acompanhar o ritmo da câmera. O narrador deve ser pausado, tranqüilo, um Paulo José, com algum sentimento na voz, alguma saudade.

OFF

Eu lembro da escalação até hoje. O goleiro era o Azeitona. A zaga era Bala, Spagheti, Tom Mix e Veludo. Cosme e Damião, os gêmeos, ficavam no meio campo. E o ataque era Arigatô, Pimenta, Dico, que era o meu melhor amigo (a câmera talvez possa ser mais lenta desse ponto para a frente), e eu, que me chamo Zuza.

A foto em P&B torna-se colorida e os meninos saem correndo pelo campo.


SEQÜÊNCIA 2. CAMPO - EXTERIOR - DIA

Meninos se aquecem, batendo bola. Imagino alguns planos individuais intercalados por outros de conjunto. Nesses individuais, já devemos ter uma pista das características dos nossos jogadores.

OFF

A única foto que eu tenho daquele time foi tirada no dia 30 de dezembro de 1950. Foi o jogo mais importante daquele time. A gente ia disputar a final da taça Júlio Ramalho.

Na beira do campo, em cima de uma mesa, a taça brilha sob o reflexo do sol guardada por dois cartolas locais. Ao fundo, as crianças se aquecem. O campinho deve estar decorado para festa, com bandeirinhas

OFF

Eu nunca tinha visto uma taça daquelas antes. Era a coisa mais bonita do mundo. Uma coisa que só um herói podia ganhar.

ALTO-FALANTE

A taça Júlio Ramalho é um oferecimento do açougue Nelore, há 15 anos oferecendo o melhor da carne para a família bauruense.

OFF

Ninguém sabia quem era esse Júlio Ramalho, mas a gente ia fazer de tudo para ganhar aquele a taça com o nome dele.

A câmera dá uma volta de 180 graus pela taça e agora, ao fundo, o que temos é o time adversário. Planos de conjunto e alguns closes dos garotos do time inimigo.

OFF

Mas pra isso a gente ia ter que ganhar do nosso inimigo: o Barão da Noroeste. Como todos os inimigos, eles chatos, feios, mal-encarados e maiores que a gente. Pelo menos é assim que eu me lembro deles. Talvez eles não fossem muito diferentes de nós, mas na minha memória eles eram uns monstros.

Travelling em contra-plongé mostra o time deles como se fosse de gigantes.


SEQÜÊNCIA 3. CAMPO DO BAIRRO - EXTERIOR - DIA

No campinho de bairro, que deve ser bem diferente do campinho da final e inclinado para um dos lados, os meninos batem bola em torno de uma trave de bambu bastante torta. Zuza e Dico com dez anos, são bem menores que os outros meninos de 12, ou 13 anos.

OFF

Eu e o Dico estávamos acostumados a jogar no meio dos grandões. Nós éramos os caçulas do nosso time. Os outros, com 12, 13 anos pareciam gigantes perto da gente. Mas gigante mesmo era o Landão, o nosso técnico.

A câmera acha o técnico, bem mal vestido, andando pela beira do campo, mancando da perna direita.


SEQÜÊNCIA 4. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Close em Landão, agora bem vestido. Ele chama os meninos que fazem uma roda em torno dele.

OFF

Landão era o nosso técnico. Era muito gordo e mancava da perna direita. Para o Landão o Sete de Setembro era o melhor time do mundo e nós éramos os jogadores da seleção brasileira. Era isso que a gente mais gostava nele.

LANDÃO

Hoje eu não quero ninguém dando uma de perna de pau. Faz de conta que é a final da Copa do Mundo. Essa taça Júlio Ramalho tem que ser nossa, tão entendendo! A gente vai jogar assim. O Cosme e o Damião vão jogar...

OFF

O Landão tinha sido jogador de futebol. Ele trabalhava de mecânico, mas o que ele mais gostava de fazer era dirigir o nosso time. Acho que isso fazia ele se lembrar dos tempos em que ele jogava futebol.

LANDÃO

Uma vez eu tive uma final que nem essa. A gente ganhou de um a zero. Eu que fiz o gol. A bola veio pela direita, alta assim, e eu dei uma paulada...

Corte brusco para a bola sendo colocada pelo juiz no centro do gramado.
Os jogadores dos dois times se encaram nervosos.
Detalhe do juiz apitando o começo do jogo. O time adversário dá a saída.


SEQÜÊNCIA 5. CASA DE ZUZA  - EXTERIOR/INTERIOR - DIA

Abre em Dico que assobia escondido em cima de uma árvore.

OFF

O assobio era o sinal para irmos ao campinho.

Sob a vigilância da mãe que prepara o almoço, Zuza faz a lição de casa na mesa da cozinha.

OFF

Os meus pais tinham proibido o Dico de bater na porta de casa todos os dias me chamando para mais uma pelada.

Zuza ouve o assobio olha pela janela e vê Dico na árvore. Pega um caderno e vai saindo.

MÃE DE ZUZA

Onde pensa que vai, moleque?

ZUZA

Fazer a lição lá fora, mãe. Aqui tá muito quente.

A mãe olha pela janela desconfiada, mas não vê ninguém. Zuza sai e assim que esconde o livro no muro, Dico joga a bola para ele. Dico desce da árvore, Zuza passa a bola para ele e os dois saem correndo, tabelando.

OFF

Pra mim o futebol não começava com o apito, começava com o assobio do Dico.

 

SEQÜÊNCIA 6. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

O placar, bem tosco, de madeira, mostra 0 X 0.

Vemos vários erros do Sete de Setembro. Num deles, é Zuza quem erra o passe para Dico. O time adversário vai para o ataque.

OFF

O nosso time estava nervoso, o que deixava o seu Landão muito nervoso.

LANDÃO

Vamos acertar esses passes! Olha a marcação! Eu que manco e vocês que são perna de pau!

O centroavante se prepara para chutar a bola. Azeitona, um negro bem gordo, abre os braços, assustado.

OFF

A gente começou jogando mal. A nossa sorte era ter o Azeitona de goleiro. Ele não era muito ágil, mas ocupava quase todo o gol. Ele não precisava ir atrás da bola...

O centroavante chuta.

ZUZA

Pega, Azeitona!

A bola bate na barriga do Azeitona e vai para escanteio.

OFF

... a bola é que ia atrás dele. O chato é que a bola quase sempre ia pra escanteio. Mas não tinha problema...

Na seqüência do jogo, o adversário bate o escanteio na área Spagueti cabeceia.

OFF

...nas bolas altas, o nosso beque central, o Spagheti, que era muito magro e comprido, ganhava todas.

A câmera desce e a bola passa entre as suas pernas.

OFF

O problema eram as bolas rasteiras. Culpa dos pés pequenos, dizia ele.

Tom Mix desarma o adversário.

OFF

Ainda bem que a gente tinha o Tom Mix, o nosso quarto-zagueiro. Ele usava óculos, mas era o nosso xerife.

Chega o zagueiro e dá uma bicuda para longe.


7. CAMPINHO - EXTERIOR - DIA

 

FLASH BACK

Tom Mix aparta a briga entre dois meninos no campinho. Então, um menino xinga o Tom Mix e este vai para cima dele. Os dois rolam pelo chão.

OFF

Sempre que tinha uma briga, o Tom Mix ia lá. Geralmente ele apartava, mas se xingavam ele quatro olhos, aí ele ia pra cima.

Ao fundo do campinho passa o trem, apitando.

OFF

Nós começávamos a jogar com o apito do trem da uma.

Tom Mix e o outro param de brigar e começam a jogar.
Cenas com meninos jogando, sempre com o sol ao fundo, até vermos um bonito pôr-do-sol. O trem passa apitando no sentindo oposto.

OFF

E só parávamos com o apito do trem das seis.

No pôr-do-sol, Dico argumenta com os outros meninos.

OFF

Um dia o Dico quis porque quis continuar jogando depois do apito do trem das seis, mesmo não tendo jogo do BAC ao lado.

ZUZA

No escuro não dá, Dico.

DICO

Dá sim

ZUZA

Como? Tá tudo escuro, não dá nem pra ver a bola.

DICO

Eu tive uma idéia. Vamos fazer assim. Cada um vai pra sua casa e pega...

Corta para o campo todo iluminado por lampiões e os meninos jogando.

OFF

A idéia do Dico foi muito boa. Ele fazia qualquer coisa pra jogar bola. Naquele dia a gente jogou até as nove. Se dependesse do Bala, a gente jogava até as onze.

 

SEQÜÊNCIA 8. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Na lateral-direita, o Bala dá um chutão na bola e sai correndo de cabeça baixa, deixando o adversário para trás.

OFF

Todo mundo tinha muito fôlego no nosso time, mas ninguém tinha tanto quanto o Bala. O Bala agüentava correr o jogo todo e ainda tinha o maior pique de Bauru.

ZUZA

Breca, Bala!

Bala sai de campo com bola e tudo.

OFF

Só que o tamanho do campo era curto demais para ele.

O goleiro adversário bate o tiro de meta, a bola cruza o campo e é dominada com classe pelo Veludo, o lateral-esquerdo, que joga com um estilo altivo e de cabeça erguida.

OFF

Na outra lateral o estilo era bem diferente. O Veludo jogava macio, com classe. Mas como disse o seu Landão, aquele jogo era diferente. Era uma final...

O jogador adversário dá um carrinho violento, toma a bola de Veludo e o time adversário vai para o ataque.

OFF

A nossa defesa era uma verdadeira muralha.

O centroavante adversário vai em direção ao gol e um a um os jogadores da defesa vão caindo sem conseguir barrá-lo. Spaguetti toma uma bola por baixo das pernas, Tom Mix erra a falta e o Bala passa reto.

OFF

Mas até a muralha da China tem os seus buracos.

O centroavante adversário chuta, a bola bate em Azeitona e entra no gol.
O time adversário comemora, o placar mostra 0x1.
Os jogadores da defesa vão levantando derrotados, absolutamente sujos de lama.


9. FLASH BACK CASA COM VARAL - EXTERIOR - DIA

Imagem das camisas penduradas no varal. Elas podem estar esvoaçantes e não têm números.

OFF

Quem lavava as camisas do nosso time era a dona Dita, a mãe do seu Landão.

10. SALA - INTERIOR - DIA

Dona Dita está colocando números nas camisas.

OFF

Para o jogo da final o seu Dandão tinha falado que as camisas precisavam ter números. Então a dona Dita costurou uns números nelas.

 

11. FLASH BACK CAMPINHO - EXTERIOR - DIA

Landão joga as camisas para cima. Elas flutuam um pouco. As mãos dos meninos se esticam para pegá-las. Dico e Zuza, como são mais baixos, só pegam as últimas que caem.

OFF

No sorteio dos números, eu peguei a camisa 11. Como o Dico era o mais baixinho, só pegou a última que caiu.

Uma única camisa plana no ar.

OFF

Eu não sei se é uma mentira da memória, que é sempre muito mentirosa, mas pelo que eu lembro, a camisa do Dico ficou mais tempo no ar. Enquanto todo mundo já tinha pegado a sua, a dela ainda estava voando, e só depois que foi descendo bem devagarzinho.

 

A camisa finalmente desce. Dico olha para ela e vê o número.


12. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Abre em uma tabela dos gêmeos Cosme e Damião.

OFF

Eu acho que o seu Landão quis numerar as camisas para que a gente não confundisse o Cosme e o Damião. Eles eram gêmeos e toda hora a gente confundia eles.

OFF

Este é o Damião.

DAMIÃO

Vai, Cosme!

OFF

Ou melhor, este é o Cosme, o camisa 5.

Ele passa a bola para Damião, o camisa 8.

OFF

O que eu sei é que aqueles gêmeos faziam uma dupla perfeita no meio de campo.

O time adversário rouba a bola e vai tabelando até a área do Sete de Setembro.

OFF

Ou quase perfeita.

A bola é roubada e o time adversário faz o segundo gol igual ao de Ghiggia no jogo Brasil 1 x 2 Uruguai.

Seu Landão passa a mão pelos cabelos e manca cabisbaixo. Depois, leva a mão até o joelho.

 

OFF

Eu lembro que quando a gente tomou aquele gol, o seu Landão fez uma cara de dor, como se tivesse levado outra cacetada na perna.

13. CENA DE ARQUIVO

Aproveitando uma cena de arquivo em P&B, vemos um jogador sofrendo uma violenta pancada no joelho.

OFF

O meu pai disse que o seu Landão foi um craque do Alvorada de Pirassununga. Mas um dia um beque acertou ele de jeito.

SEQÜÊNCIA 14. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

O Sete de Setembro recomeça a partida e logo perde a bola. Tom Mix recupera com falta. O juiz apita.

OFF

Acho que é por isso que não gostava que a gente fizesse falta violenta.

LANDÃO

Sem falta, Tom Mix, sem falta!

Landão, desanimado, anda mancando pela lateral do campo.

OFF

O seu Landão teve que abandonar o futebol e abrir uma oficina mecânica. E para não ficar longe da bola, começou a treinar os meninos da cidade.

Landão grita para o time correndo pela lateral do campo.

OFF

Agora ele não jogava mais futebol com as pernas. Jogava com a garganta.

LANDÃO

Corre! Corre! Vamos lá!

Com a câmera em Landão, percebemos por sua reação que o garoto errou. Ele põe a mão na cabeça se lamentando, mas logo se recupera e volta a gritar.

LANDÃO

Não, não!... (passa a mão pela cabeça e recupera-se) Vamos lá, vamos lá, vamos ganhar esse jogo que dá pé!

Landão continua se mexendo e gesticulando, mas seu som diminui e entra o OFF de Zuza.

OFF

Mesmo gritando um pouco demais e exagerando nas suas histórias, o seu Landão era um dos nossos ídolos.

 

15. FLASH BACK - CASA DE ZUZA - EXTERIOR - DIA

Zuza, Dico e Pimenta jogam bafo. Imagens dos jogadores em figurinhas. Ao fundo, ouvimos o som de uma partida de futebol de 1950.

OFF

Mas nós tínhamos outros ídolos, ídolos que vinham do rádio e dos álbuns de figurinhas.

ZUZA

Eu troco o meu Bauer e o meu Zizinho pelo seu Ademir de Menezes.

DICO

Se você me der o seu Leônidas, eu te dou o meu Ademir e ainda o Barbosa, o Bigode e o Friaça.

PIMENTA

Troco toda a seleção de 50 pelo Heleno de Freitas.

 

16. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Seqüência do jogo. Pimenta e beque adversário se empurram na área, esperando o cruzamento do Arigatô.

OFF

O ídolo do Pimenta era o Heleno de Freitas, um atacante tão brigão quanto ele.

Arigatô tenta driblar o lateral adversário, mas o adversário faz uma falta nele.

OFF

Era o contrário do nosso ponta direita, o Arigatô, que agradecia até quando faziam falta nele.

Um jogador do outro time dá a mão para Arigatô levantar.

ARIGATÔ

Arigatô!

Cosme cobra a falta. Zuza recebe a bola na ponta-esquerda.

OFF

Na outra ponta ficava eu. Nunca cheguei a ser um grande jogador, mas eu tinha chute bem forte com a perna esquerda.

 

Zuza fecha o olho, dá um chutão e a bola é projetada para fora, muito longe do gol. Dar um close nos olhos fechados dele.

OFF

Só não tinha muita direção...

O juiz apita o fim do primeiro tempo.
O placar marca 0x2
Os garotos vão saindo cabisbaixos. Dico e Zuza saem lado a lado.

OFF

Quando o juiz apitou o final do primeiro tempo, todo mundo saiu muito triste do campo. Então eu me lembrei de um jogo que eu escutei no rádio com o Dico e o pai dele, o seu Dondinho. Acho que o Dico estava lembrando da mesma coisa...

 

17. CASA DE DICO

Seu Dondinho, Dico e Zuza ouvem a final de 50 no rádio. Seu Dondinho está sentado numa cadeira, bem ao lado do rádio. os meninos estão no chão. Dico segura uma bola.

OFF

Era a final da Copa do Mundo de 50. O Brasil estava jogando com o Uruguai.

LOCUTOR

(O locutor tem um tom triste, quase fúnebre.)
E termina a peleja... Dois a um para o Uruguai. O público está calado. Os uruguaios pulam em campo. Ninguém esperava por essa derrota, ninguém... Perdemos a taça Jules Rimet...

Em câmera lenta, uma lágrima cai do olho de seu Dondinho em cima da bola que Dico segura.

OFF

Depois do gol daquele tal de Gigghia, a gente viu uma lágrima sair do olho do seu Dondinho.

Dico olha para cima, para o pai.

DICO

Um dia eu vou ganhar uma taça para o senhor.

 

18. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Landão fala com os garotos no meio campo. Enquanto fala, passa a mão no joelho de nervoso.

 

LANDÃO

Ô, molecada, o que que vocês têm hoje? Eu que manco e vocês que tem pé torto? Cês jogam muito melhor que isso! (acalma-se) Olha, teve uma vez que o meu time lá em Pirassununga tava perdendo de dois a zero e virou o jogo. E sabem por quê? Sabem? Porque a gente gostava de jogar bola e a gente jogou como quem gosta de jogar bola. Esse é que é o segredo. Jogar futebol com gosto. O resto é bobagem.

19. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Como Didi em 1958, Dico vai com a bola embaixo do braço e coloca no meio do campo. Então fala para Zuza, que estava ao seu lado. Deve entrar uma música bem bacana nessa seqüência, que deve ser praticamente um clip.

DICO

Vamos virar esse jogo!

O juiz apita o início do segundo tempo. Nas cenas iniciais, vemos o time mais decidido. Cosme e Damião acertam uma tabela, Veludo dá um chutão, Spaguetti não deixa a bola passar debaixo das suas pernas, Tom Mix, em vez de dar uma bicuda, pára a bola e passa calmamente para Bala. Bala vai até a linha de fundo e consegue parar de correr. Passa para Arigatô, que agradece a bola e esse vira o jogo para Zuza. Zuza passa a bola para Dico na área.

Dico dá um chapéu e faz um gol exatamente igual ao de Pelé contra a Suécia na Copa de 1958.

Dico corre pelo campo e comemora com um soco no ar.

 

OFF

Eu adorava quando o Dico dava esse soco no ar. Eu vi a primeira vez que ele fez isso.

20. CAMPO AO LADO DO ESTÁDIO - EXTERIOR - NOITE

Cena noturna dos meninos que jogam pegando carona na iluminação do estádio.

OFF

Uma noite, num campinho do lado do estádio do Noroeste, a gente tava pegando a carona na iluminação deles e o Dico fez um gol justo na hora em que teve um gol no estádio.

Vemos o gol de Dico e ouvimos os gritos da torcida.

OFF

Parecia que os gritos de gol da torcida eram para o Dico.

No contra-luz, Dico sai correndo e soca o ar, comemorando. Meninos ficam olhando.

OFF

O Dico saiu correndo pelo campinho e deu um soco no ar de alegria.

Dentro do estádio, torcida comemora.

21. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Dico recebe passes dos companheiros.

OFF

O time não combinou, mas, depois daquele gol, todo mundo que pegava a bola, passava para o Dico.

Dico desarma, dribla, cabeceia, mata a bola, bate falta, faz passes, chuta a gol.

Na lateral, Seu landão e seu Dondinho assistem ao jogo com atenção e admiração.

LANDÃO

Esse garoto joga com gosto.

DONDINHO

Ele ama a bola.

LANDÃO

E a bola ama o seu filho. (Opção engraçadinha: "E a bola ama seu filho. Isso vai dar em casamento.")

 

Dico vai bater um lateral e segura a bola girando nas suas mãos, como a acariciasse.

22. ESTRADINHA - EXTERIOR - DIA

Zuza e Dico acham uma bola velha no meio do mato.

OFF

Quando a gente encontroui aquela bola velha, achei que não ia servir para nada.

Os olhos de Dico, que pega a bola com carinho, brilham.

ZUZA

Tá velha.

DICO

Tá nada. Ela só precisa de uns consertinhos.

OFF

Por mim eu jogava aquela bola fora, mas o Dico, que já tinha trabalhado de engraxate e às vezes ajudava um amigo nosso que era sapateiro, falou que ia dar um jeito.

 

23. CASA DE DICO -INTERIOR - DIA

Takes variados mostram Dico costurando, passando cola e encerando a bola cuidadosamente. Quando termina, a bola está brilhando. Ele joga para o alto e mata ela no peito.

 

24. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Dico mata uma bola no peito com muita classe.

OFF

A diferença entre o Dico e os outros meninos é que a gente gostava de futebol, mas ele adorava. Se pudesse, ele jogava bola o dia inteiro. Também tinha outra diferença: enquanto todo mundo fazia as coisas que todo mundo faz, ele fazia coisas que ninguém mais fazia. Era como se fosse um mágico de circo, cheio de truques. E cada vez mais gente queria ver ele fazer as suas mágicas.

Garotos em cima de árvores, grupos de velhos, mulheres, todo o tipo de gente da torcida vibra com as jogadas de Dico.
Placar marca 1 x 2.

Dico dribla todos os jogadores do time adversário e passa para Zuza.

Zuza recebe a bola.

OFF

Quando eu recebi a bola na ponta esquerda, o Dico pediu...

DICO

Cruza daquele jeito que a gente treinou, Zuza!

ZUZA

Vou tentar.

Quando Zuza vai cruzar, corta para:

25. IMAGENS DE ARQUIVO OU FOTOS

Imagens do Leônidas da Silva.

OFF

Um dia o São Paulo foi a Bauru jogar contra o Noroeste.

Na arquibancada, Zuza e Dico assistem boquiabertos.

OFF

E a gente viu de perto o Leônidas da Silva. Mais que isso. Naquele dia ele fez um gol de bicicleta. O Dico nunca tinha visto um gol daqueles antes e disse que tinha que aprender aquilo de qualquer jeito.

Ainda está escuro e Zuza dorme quando é acordado pelos assobios de Dico.

OFF

No dia seguinte os assobios do Dico me acordaram antes do galo cantar.

No campinho Zuza faz cruzamentos para Dico que tenta fazer um gol de bicicleta.

OFF

Eu passei o dia seguinte inteiro cruzando bolas para o Dico tentar fazer o gol de bicicleta.

O sol se põe enquanto passa o trem das seis. Zuza está cansado e Dico cheio de disposição.

ZUZA

Amanhã a gente continua, Dico.

DICO

Só mais um pouquinho.

ZUZA

Está escurecendo ea minha mãe não vai emprestar o lampião.

OFF

mas ele sempre dava um jeito...

Uma fileira de velas em cima do travessão ilumina o gol. Dico espera os cruzamentos.

DICO

Bate mais forte, a bola tem que chegar um pouco mais alta...

 

SEQUÊNCIA 26. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Zuza vai cruzar.

OFF

Eu bati mais forte para a bola chegar um pouco mais alta...

Dico recebe a bola e faz um gol de bicicleta.

OFF

E o Dico conseguiu fazer o gol de bicicleta igualzinho ao do Leônidas da Silva.

Dico corre pelo campo e dá um soco no ar.

OFF

O Dico era meio doido.

Festa da torcida.
O placar marca 2 x 2.

 

27. PRACINHA - EXTERIOR - DIA

Zuza e Dico fazem gracejos para duas meninas que passam chupando picolé. Elas continuam andando sem olhar para eles, mas cheias de risinhos, gostando.

OFF

A gente só precisava de mais um gol pra ser campeão. Mas a bola resolveu fazer o mesmo charme que as meninas faziam pra gente.

 

28. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Dico perde três gols históricos como os de Pelé:

1. O drible no Mazurkievsky
2. O chute no meio de campo
3. A rebatida de primeira

OFF

A bola não entrava no gol... Aí o pessoal começou a ficar nervoso.

Pimenta leva falta, encara o beque, leva empurrão. Azeitona chega e dá uma gravata no adversário.

OFF

O Pimenta ficou ainda mais nervoso, esquentou com o beque, o Azeitona tomou as dores do irmão e acabou expulso.

Azeitona entrega as luvas para Dico.

OFF

Como naquele tempo ainda não tinha substituição. Alguém ia ter que pegar no gol. O melhor era o Dico.

O time adversário no ataque, pressiona.

OFF

Com o nosso craque jogando de goleiro e com um a menos em campo, começou o bombardeio. Sorte nossa que o Dico era tão bom no gol quanto na linha.

Dico defende bolas incríveis.

DICO

Boa, Bilé! Segura, Bilé! Dá-lhe, Bilé!

29. CAMPINHO - EXTERIOR - DIA

No campinho, Dico joga no gol.

OFF

No campinho, quando o Dico jogava no gol também tinha essa mania. Quando fazia uma defesa ficava gritando Bilé, Bilé, Bilé...

OFF

Um dia ele me explicou que Bilé era o nome do goleiro do time que o pai dele jogava, o Vasco da Gama de São Lourenço.

 

30. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Dico faz mais uma defesa.

DICO

Grande, Bilé!

OFF

Os meninos do outro time entenderam errado.

Os adversários se irritam com aquilo.

MENINO 1

Este Pelé, pega tudo!

MENINO

Com esse tal de Pelé, não dá!

Dico vai bater o tiro de meta.

OFF

Eu entrei na deles e brinquei com o Dico...

ZUZA

Manda pra mim, Pelé!

 

Dico sorri e chuta com força. A bola sobe muito, cruza todo o campo e, em slow, vai chegando exatamente na cabeça de Zuza.

OFF

Quando eu vi a bola vindo na minha direção, eu pensei: ela tá vindo pra minha cabeça, eu tenho que fazer esse gol. Aí lembrei dos gols de cabeça que o Dico fazia.

 

31. FLASH-BACK GOLS DE CABEÇA DE DICO - EXTERIOR - DIA

Uma seqüência de Dico recebendo cruzamentos e fazendo gols de cabeça, todos com estilo, olhos bem abertos, certeiros. Um peixinho, uma cabeçada de cima para baixo, uma testada no ângulo etc... na verdade, a cena não deve ser muito longa, umas quatro cabeçadas bonitas está de bom tamanho.

32. FLASH-BACK CASA DE DICO - INTERIOR - NOITE

Vemos uma lâmpada acesa balançando. Depois percebe-se que era Seu Dondinho que estava balançando uma lâmpada acesa pendurada num fio.

OFF

Quem ensinou o Dico a cabecear daquele jeito foi o seu Dondinho.

SEU DONDINHO

Abre o olho, Dico.

DICO

Não dá..., dói.

SEU DONDINHO

Dá sim..., só um pouquinho.

Dico abre um pouco os olhos.

SEU DONDINHO

Isso, agora cabeceia de novo.

Seu Dondinho joga a bola para Dico, que cabeceia com os olhos bem fechados. A bola vai longe.

SEU DONDINHO

Não, filho, tem que ser com o olho aberto. Abre só um tantinho, que nem você fez com a lâmpada.

Na tentativa seguinte, Dico consegue abrir os olhos apesar da luz e cabecear. A bola vai para o Seu Dondinho.

SEU DONDINHO

Isso! De novo

Seu Dondinho joga a bola para Dico. Visão subjetiva de Dico, que vê a bola chegando. Fusão para a cena seguinte.

 

33. CAMPO DA FINAL - EXTERIOR - DIA

Passamos para outra bola que cresce na tela, só que esta vindo em direção ao Zuza. Ele olha para ela assustado.

OFF

Como eu não tinha treinado com a lâmpada, fechei bem os olhos e torci pra aquela bolada não doer muito.

Zuza fica paradinho e fecha os olhos com bastante força. A bola vem descendo, vem descendo, descendo, e bate bem na cabeça dele. Por um daqueles milagres, a bola vai parar bem no ângulo do goleiro adversário.

A bola estufa a rede.

OFF

Foi um gol mágico. O maior gol da minha vida. Pena que eu não vi.

O juiz apita fim de jogo. Zuza abre os olhos e vê uma tremenda comemoração. A molecada grita e se abraça, os gêmeos se abraçam, Dico pula de felicidade, Tom Mix se pendura em Spaghetti, Bala corre e pula, Pimenta mostra a língua pros inimigos, Arigatô olha para o céu e agradece. Depois, o time inteiro carrega Zuza nos braços. Os pais estão contentes. Dico abraça Dondinho.

Eles se enfileiram para tirar a foto de campeões.

 

OFF

Enquanto tiravam a nossa foto de campeões, eu disse para o Dico...

ZUZA

Um dia a gente vai chegar à seleção!

OFF

Ele achou aquilo um exagero...

A imagem congela e transforma-se em textura de foto.

 

SEQÜÊNCIA 34. FOTO FINAL

Temos novamente uma foto dos meninos enfileirados, só que agora mais felizes e com a taça perto deles. A câmera vai passando lentamente por cada um dos jogadores e, enquanto isso, ouvimos Zuza em off narrando o que aconteceu com cada um.
No meio do Off, a foto dos meninos transforma-se numa foto de 11 homens, que correspondem aos nossos onze jogadores. Eles devem ser meio parecidos com os meninos. O primeiro deve ser um negro gordo, o segundo deve estar numa cadeira de rodas, o terceiro deve ser alto e gordo etc... obviamente o Pelé deve ser o Pelé e o Zuza deve ser o próprio.

OFF

Depois daquele jogo, aconteceu o inevitável: a gente cresceu. Cada um foi pro seu lado e fez a sua própria vida.

OFF

O Azeitona virou massagista e engordou tanto que em 1974 foi eleito rei Momo do carnaval de Bauru.

OFF

O Bala teve problemas. Um dia um marido pegou ele na cama com a esposa. O Bala correu o mais que pode, mas o Bala não corria mais que as balas. Uma acertou ele bem na coluna e ele ficou paralítico.

OFF

O Spagueti abriu uma cantina e também engordou muito. Como ele ficou meio redondinho, hoje todo mundo chama ele Nhoque.

OFF

O Tom Mix, com aquele seu estilo meio estúpido, só podia virar delegado.

OFF

O Veludo virou o alfaiate mais chique da cidade. Ele sempre foi um cara de muita classe.

OFF

Os irmãos Cosme e Damião formaram uma dupla sertaneja que até faz um certo sucesso.

OFF

O Arigatô abriu uma granja e se deu muito bem na vida. Dizem que ele fala Arigatô cada vez que uma galinha bota um ovo.

OFF

O Pimenta teve um destino parecido com o do Heleno de Freitas. Também foi parar num hospício. Só que depois de um tempo fugiu. Hoje é vereador.

OFF

O Dico depois daquele jogo começou a ser chamado de Pelé. Aí foi jogar no Santos e acabou sendo o maior jogador de todos os tempos.

OFF

E eu virei gerente de banco, uma pessoa comum, com uma história comum. Se bem que talvez nenhuma história e nenhuma pessoa sejam realmente comuns. Nem o Azeitona, nem o Bala, nem o Tom Mix, nem o Veludo, nem Cosme e Damião, nem Arigatô, nem Pimenta, nem eu... e nem o Pelé, que pra mim vai ser sempre o meu amigo Dico.


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