Leia abaixo um trecho da peça Inês de Castro

COZINHA DO PALÁCIO
Corte de Afonso IV. Um cozinheiro prepara os pratos que serão servidos no banquete de recepção da infanta de Castela, dona Contança, futura esposa do príncipe Dom Pedro. Ao lado dele, um arauto.

COZINHEIRO

Está de jeito a lampréia?

ARAUTO
(cheira a panela)

Salsa, cebola, hortelã e coentros.

O cozinheiro, contente, confirma e esfrega as mãos.

ARAUTO

Mas falta ainda aquele idoso vinho que, como nós, no estertor da vida, perde a cor rubra, tornando-se um líquido amargo e ruim de tragar.

COZINHEIRO

Diz logo vinagre, bobalhão!

O arauto faz cara de indignado.

ARAUTO
(zombando)

Será que a infanta apreciará?

COZINHEIRO

Eu dou conto de duas coisas: uma é que o príncipe Dom Pedro aprecia, e duas, que quem tem que mandar na casa é o homem!

ARAUTO

Tu sabes que, às vezes, as mulheres mudam o modo de pensar dos maridos.

COZINHEIRO

O de pensar, talvez; o de comer, nunca.

A criada de Dona Constança aparece no canto do palco e pigarreia alto. O arauto se posiciona solenemente.

ARAUTO

Senhor real cozinheiro, a sereníssima criada da infanta de Castela!

O cozinheiro faz uma mesura e a criada começa a andar pela cozinha com ar superior. Num dado momento ela tira pó de um móvel com o dedo, no outro, ajeita um copo para ficar enfileirado com os outros. Eles a seguem com o olhar. Por fim, ela se aproxima da panela, aspira o cheiro e faz uma cara de contentamento que os deixa aliviados.

CRIADA

Que galinha mais de jeito!

ARAUTO

Galinha? Isto, senhora, é tão perfeitamente uma galinha quanto eu seria um javali.

Ela fuzila-o com o olhar. Ele esconde-se atrás do amigo.

CRIADA

Quais são os temperos?

COZINHEIRO

Salsa.

CRIADA

Hum!

COZINHEIRO

Cebola.

CRIADA

Huum!

COZINHEIRO

Hortelã.

CRIADA
(preocupada)

Hortelã?

COZINHEIRO

Hortelã.

CRIADA

Huuum!

COZINHEIRO

E coentro.

CRIADA
(preocupada)

Coentro?

COZINHEIRO

Coentro.

CRIADA
(histérica)

Como, coentro!? Minha senhora detesta coentro! Dona Constança é capaz de comer uma vaca cozida na sexta-feira da paixão, dona Constança é capaz de partilhar o prato dos sarracenos infiéis, mas coentro nunca, nunca!

(para o arauto)

Será que ninguém foi capaz de avisar este fritador de peixota?

COZINHEIRO

Olha como fala, carantonha de égua!

A criada pega um garfo e avança sobre ele, que se defende com uma tampa de panela.

ARAUTO
(apartando-os)

Pelo corpo de São Fernando, senhor, senhora!

CRIADA
(saindo)

Começamos mal, começamos mal!

COZINHEIRO

Castelhanos, leoneses, galegos, aragoneses...

(dá soco na mesa)

como desprezo essa corja de gente presumida! Quer saber? Eu vou dar uma boa mijada no prato dela, ah, se vou!

ARAUTO

Não sei porque o príncipe não se casa com uma rapariga da terra. Algumas nem são tão de meter medo assim!

COZINHEIRO
(bufa)

Toca a refazer o peixe.

ARAUTO
(imita a criada)

Sem coentro! Minha senhora não suporta coentro!

Os dois saem a rir enquanto, do lado direito do palco, vem desfilando lentamente uma procissão de capuchinhos, dos quais não se pode ver o rosto. Eles conduzem, no andor, um trono vazio.

CORO

Reino de Portugal, ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil trezentos e quarenta. Atribulados, aflitos, os camareiros correm para receber em graciosa cerimônia a infanta de Castela: Constança de apelido e maneiras, que vem a esposar o inconstante filho do rei.

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