Ira - Xadrez, truco e outras guerras Prefácio

Temo que este livro venha a provocar a ira de todos os seus leitores. Os que amam a ficção acharão esta obra impura, pois há muitos capítulos claramente inspirados na Guerra do Paraguai; já os que gostam de história odiarão este livro pela excessiva liberdade com que recriou tão nobre capítulo da vida pátria.Os sérios dirão que nestas páginas há muito humor; os alegres, que o humor foi pouco...

Ed. Objetiva
1998, 184 pgs.

O Rei

— Xadrez ou truco?
— Truco.
— Já jogamos truco ontem.
— Que seria da vida se não pudéssemos fazer hoje o que fizemos ontem?
— Um bocado mais interessante.
— Xadrez é um jogo para damas!
— Protesto, Magestade, é o jogo em que mais se aguça o raciocínio.
— E para que aguçar o raciocínio?
— Para vencer na vida.
— Para isso não é necessário raciocínio, mas esperteza, dissimulação e sorte, como no truco.
— No xadrez há um rei, como vós.
— E no truco há o blefe, como tu.
— O xadrez é mais inteligente.
— O truco é mais divertido.
— A inteligência é sempre a coisa mais divertida.
— A diversão é sempre a coisa mais inteligente.
— Talvez seja verdade.
— Verdade ou não, jogaremos o truco.
— Se é vosso desejo...
— É isso ou mando-te de volta para aquele país cinzento.

    Sentaram-se. O próprio Rei embaralhou as cartas e chamou dois ajudantes para formar as duplas. Ora a sorte correu para o lado de uns, ora para o lado de outros, até que num momento o Rei deu um violento tapa na mesa e gritou para o Diplomata:

— Truco!
— Vossa Majestade me assusta com esses gritos.
— Tens ouvidos muito sensíveis.
— Bem, eu retruco.
— Grite!
— Não preciso gritar, apenas retruco.
— Os gritos fazem parte desse jogo. Grite!
— Retruco.
— Mais alto!
— Retruco!
— Aceito! Mostra o teu jogo, patife!

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