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Quando eu morri, quinhentos anos atrás, já existiam vermes
e políticos. Os dois são o assunto deste livro que o leitor segura em suas mãos.
Lave-as depois.
Vermes e políticos têm mais em comum do que se pensa. Ambos fazem caminhos
tortuosos, estão em todos os lugares e preocupam-se, antes de tudo, com a sua
sobrevivência. Há porém uma diferença: os políticos tentam entender a natureza da
política, os vermes, a política da natureza. Eu, que conheci estes dois tipos de seres,
sei do que estou falando... |
Editora
Objetiva
2000, 232 pgs. |
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I
Abri os olhos e vi que estava confortavelmente deitado numa planície verdejante. A
temperatura era fresca e agradável como a de uma manhã de primavera. Soprava uma leve
brisa e doces melodias ecoavam, dando-me a sensação de que a vida fora feita para a
felicidade. Mas eu estava enganado.
De repente o chão começou a tremer e uma
sombra cobriu minha planície. Olhei para cima e vi descer do céu uma mão gigantesca.
Ela apanhou o lugar em que eu estava e carregou-o em direção a uma enorme caverna.
Desesperei-me, corri de um lado para outro, mas não havia como fugir. Minha
resplandecente morada ia em direção àquela tenebrosa cavidade. Tive certeza de que
rumava para a morte e lamentei que a vida fosse tão curta, não mais que um breve
instante entre o nascer e o morrer.
O buraco negro aproximava-se cada vez mais,
como uma nuvem que encobre o sol, como uma noite que engole o dia. Num só golpe fui
atirado lá dentro e caí em cima de algo vermelho e pegajoso como deve ser o chão do
inferno. Tentava me levantar quando a caverna foi invadida por um oceano borbulhante e as
águas me envolveram. O maremoto jogava-me de um lado para outro sem piedade.
No teto e no chão da caverna havia gigantescas
rochas amareladas que iam de encontro umas às outras, moendo tudo que ousasse ficar entre
elas. Por várias vezes estive a ponto de ser esmagado, mas escapava como que por milagre.
Minha planície verdejante não teve a mesma sorte: foi perfurada, rasgada e amassada
pelos mortais penedos. Tudo ia se transformando numa massa escura e pastosa.
Achei que nada pior poderia acontecer. Mas eu
estava enganado.
As águas formaram um vagalhão e me empurraram
para um precipício no fundo da caverna. A queda parecia não ter fim. Tentava prender-me
em algo. Em vão. Eu despencava por aquela catarata e tinha certeza de que logo me
espatifaria. Perguntei a mim mesmo: "Então isso é a vida? Um poço sem fundo? Uma
queda eterna e sem volta? Logo teria minha resposta, uma resposta líquida e certa.
Foi quando caí num lago gosmento. Notei que
alguns destroços boiavam ao meu lado e agarrei-me num deles para flutuar. Tive um momento
de descanso e suspirei aliviado. Achei que finalmente poderia pensar um pouco e entender o
que estava se passando. Mas eu estava enganado.
Olhei para o lado, um redemoinho se formava.
Tentei nadar para longe, mas não consegui. Por mais que me esforçasse, pouco a pouco ia
sendo tragado para o centro do vórtice, e finalmente fui sugado para as profundezas.
Lembro que enquanto dava voltas, disse a mim mesmo: "Bah, se a vida é uma
seqüência de terremotos, maremotos, abismos e redemoinhos, melhor seria não ter
nascido." Mas se era verdade que eu pensava assim, não era mentira que usava todas
as minhas forças para escapar da morte.
Depois de muita luta, já estava cansado e
aceitando o inevitável. Parei de nadar e entreguei-me à sorte. Mas quando já esperava o
fim de tudo e minha volta ao nada, algo me puxou, tirando-me do sorvedouro.
Quando abri os olhos, meu salvador
cumprimentou-me com seu rabo e disse:
"Muito prazer, meu nome é Eurytrema
pancreaticum, mas pode me chamar de Eury."
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