Romeu e Julieta, Segunda Parte (1992)
        Menção honrosa no Concurso Nascente (USP + Ed. Abril)

Leia abaixo um trecho da peça

 

ATO I

(Cripta. Ao lado de vários esqueletos e restos de corpos, jaz Julieta. Véus transparentes fazem as vezes de teias. A luz é fraca e triste. Toca música tema. Romeu força a porta.)

Romeu – (força a porta) Ó cripta maldita que engoliste meu único amor. Ó detestável mandíbula, saciada com o mais caro pedaço da terra, assim forço para que tuas maxilas apodrecidas de abram e, apesar de tudo, te fartarei com mais alimento! (Abre a sepultura)

Esse estômago da morte pode ser funesto para todos, mas para mim é um régio salão de festas, porque aqui descansa Julieta e sua formosura transforma as trevas em luz. (aproxima-se de Julieta) Ó meu amor, ó minha esposa. A morte que sugou o mel do teu hálito, nenhum poder teve ainda sobre tua formosura! O pálido estandarte da morte ainda não foi aqui desfraldado! Ah, querida Julieta! Por que és ainda tão bela? Será que o anjo da morte se apaixonou por ti e te guarda para ser teu amante? Assim temo e por isso jamais sairei do teu lado. Neste sombrio palácio da noite fixarei minha eterna morada. Este frasco de veneno é meu convite para o baile da morte. Não darei a outra alma a chance de dançar contigo a primeira valsa (bebe e faz cara de que a coisa é muito ruim). Argh! (faz cara de criança quando toma remédio, mas não chega a exagerar, pigarreia e se recompõe). Ah!, veneno, por mais amargo que seja teu sabor, para mim és mel, pois és tu que me levarás para o sono eterno ao lado de minha amada. Olhos, vejam pela última vez a suprema beleza! Braços, daí vosso último abraço! E vós, ó lábios, com um legítimo beijo selai o pacto eterno com a morte (beija-a, contorce-se e cai, sempre com algum exagero).

Julieta – (Julieta acorda lentamente) Acordei, deu certo o plano de Frei Lourenço. Sua poção fez com que eu passasse por morta. Agora é só esperar por Romeu e fugiremos para Mântua.... (assusta-se) Que é isto? Meu esposo dorme? Uma taça apertada na mão de meu fiel amor. Não! Veneno! Seu sono será eterno... Oh! ingrato! Tudo bebeste sem deixar uma só gota amiga que me ajude a seguir-te? Beijarei teus lábios!...Talvez haja neles um resto de veneno para trazer-me o conforto de morrer ao teu lado. Teus lábios estão quentes! Faz pouco tempo que partiste...preciso me apressar para seguir-te. Oh, bendita adaga!, que meu coração seja tua última bainha. (apunhala-se) Enferruja-te aqui e deixa-me morrer! (cai ao lado de Romeu e morre)

(Luz vai ficando fraca, Sobe BG. Luz acaba por completo. Sai BG. Ouve-se alguém que passa mal. Luz volta e vê-se Romeu levantando)

Romeu – (Caminha com a mão no estômago. Sente-se mal) Que veneno maldito aquele boticário me vendeu! Pensava que todo meu corpo acordaria nas chamas do inferno, mas só minhas tripas estão a queimar. Meu reino por uma latrina (esconde-se atrás de uma tumba e vomita).

Julieta – (levantando-se) Ai, Ai, aiaiaiaiai. (tira a faca) Ó adaga maldita, és menos afiada que a língua das mulheres. Não me levaste para o mundo dos mortos, e ainda por cima estragaste meu melhor vestido. Ó vida ingrata! Não tenho direito nem à paz das trevas...

Romeu – (levantando-se e vendo Julieta. Sobe BG) O que meus olhos estão a ver?! Estarei no céus contemplando o mais belo dos anjos?

Julieta – Ah, angélica figura! (corre e abraça-o) Não tenhas dúvida. Com certeza piso as nuvens, porque não há nada mais celeste que viver ao lado teu.

Romeu – Estamos vivos, Julieta. O que poderia ser uma tragédia, será apenas o primeiro dia do resto de nossas vidas.(dão as mãos e olham-se nos olhos).

Romeu – Eu te amo infinitamente.

Julieta – E eu duas vezes mais que isso.

Romeu – Tu és a lua que ilumina o negrume da minha noite.

Julieta – Tu és o sol que faz desabrochar minhas flores.

Romeu – Meu amor é maior que o das beatas pelos santos.

Julieta – Meu desejo por ti é maior que o do guerreiro pela batalha.

Romeu – Se eu fosse um bêbado, tu serias o último gole do vinho.

Julieta – Se eu fosse uma mendiga faminta, tu serias meu primeiro pedaço de pão.

Romeu – Tu és o vento que leva minha embarcação pelos mares da felicidade.

Julieta – E tu o jumento que leva minha carruagem pelas estradas da alegria.

Romeu – Jumento?

Julieta – Não consegui pensar em nada melhor.

Romeu – Esquece, agora devemos viver como marido e mulher, mesmo que nossas famílias tudo façam para nos separar.

Julieta – Nosso amor venceu a morte. Quem são nossas famílias para nos impedir?

Romeu – Façamos conforme o plano de Frei Lourenço e fujamos para Mântua.

Julieta – Ah, eu queria que Mântua fosse a dois passos daqui.

Julieta – Romeu....

Romeu – Julieta....

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