RETRATO FALADO - TEREZINHA
Dezenas de fotos 3 x 4 de pessoas desconhecidas embaralham-se no vídeo até a câmera fechar na foto de Terezinha:
DENISE (off)
Hoje a gente vai contar a história
da Terezinha.
00:00.08.06
TEREZINHA
Bem, eu sou Terezinha Correia da Silva, moro há 40 anos em Arapiraca, né? Tenho
66 anos...
Denise no caminhão, ainda como Denise:
DENISE
A Terezinha vai mostrar que na vida não existe marcha a ré. Tem que engatar a
primeira, a segunda, a terceira e a quarta, porque não adianta ficar em ponto morto.
00:01.00:07
TEREZINHA
O meu marido era caminhoneiro quando eu casei com ele, né? E ele começou a
dirigir caminhão e eu em casa cuidando dos meninos...
DENISE
(cozinhando algo) Benhê, sabe que eu tô cansada de pilotar esse fogão.
ELE
Sei...
DENISE
Eu tava pensando em pilotar outra coisa.
ELE
O tanque de lavar roupa?
DENISE
Não, o teu caminhão.
ELE
(assustado)
O meu caminhão?
Caminhoneiros falam que não emprestariam o caminhão para sua esposa.
ELE
Viu? Caminhão não é coisa pra se emprestar.
DENISE
Mas se você me ensinasse a dirigir eu podia te ajudar.
ELE
Não dá, Terezinha, caminhão é coisa pra homem.
DENISE
Coisa pra homem!? Hoje em dia não tem mais esse negócio. A gente já tá na
década de setenta!
00:08.00.17
TEREZINHA
Achava que aquela profissão quem tinha que exercer era um homem, mulher não. E
naquela época mulher não chegava nem na porta da frente, mulher era pra conversar da
porta do meio pra trás, quando o marido pedisse alguma coisa ela chegava na porta do meio
e dizia: ai, meu filho, tá aqui...
Denise coloca a comida na mesa.
DENISE
Ai, meus filhos, tá aqui.
Em câmera acelerada, o marido e os filhos avançam, comem tudo bem rápido e depois saem. Denise então senta-se e fala para si.
DENISE
Bom, pelo menos a gente tem o reconhecimento da família.
O marido dirige o caminhão e Denise ao lado. Sobre essas imagens, o off:
00:02.00.10
TEREZINHA (OFF)
O tempo muda e as mulheres também tem que mudar (EDITAR)eu sou muito persistente, aí fui insistindo, insistindo...
DENISE
Deixa eu pegar no volante um puoquinho...?
ELE
Não seja insistente, mulher.
DENISE
Deixa?
ELE
Não.
DENISE
Deixa?
ELE
Não.
DENISE
Deixa?
ELE
Por que que eu ia deixar?
DENISE
Por que? Porque a mulher não deve se encostar.
00:13.00:13
TEREZINHA
A mulher não deve se encostar porque se ela tem o marido hoje e dá tudo a ela,
ela não confie nisso não, porque nós tamo vivo hoje, amanhã nós tamo morto e se o
marrido morrer e ela não souber fazer nada?
ELE
Vira essa boca pra lá.
DENISE
(virando a boca para o outro lado.) Tá bom, eu viro, mas que é verdade, é.
ELE
Amanhã de manhã a gente conversa sobre isso, tá?
DENISE
(alegrinha)
Tá.
(beija-o, agradecida)
Denise serve um gigantesco café da manhã para o marido.
DENISE
Então, pensou naquele assunto de ontem?
ELE
Que assunto? (ela tira a cesta de pães da mesa)
DENISE
(ameaçando)
Não se faça de desentendido...
ELE
Não tô lembrando de nada... (ela tira o suco da mesa)
DENISE
Você me prometeu!
ELE
Promessa..., promessa... (ela tira o café e o leite)
DENISE
Vai dizer que esqueceu?
ELE
Sabe o que é? A minha memória anda muito ruim... (ela tira as frutas da mesa)
DENISE
Sabe o que é ótimo pra memória?
ELE
Não.
DENISE
Jejum! (ela faz que vai tirar o bolo da mesa)
ELE
Não, o bolo, não! Tudo bem, eu vou lhe ensinar.
00:01.05.27
TEREZINHA
Ele disse: olhe, eu vou lhe ensinar, agora ensinar só pra você trabalhar assim,
mais eu! Mas pra você fazer uso da profissão, não!
DENISE
Tudo bem. Mas então se alimenta direito.
Ela coloca a comida na boca dele e lhe cobre de beijos, empolgada. Por fim, close no relógio. Fusão para uma hora depois, indicando passagem de tempo. A mesa está já meio vazia.
ELE
Terezinha, por que tanta demora, Terezinha?
DENISE
Calma! Só mais um segundo.
Ela entra em cena toda vestida de domingo.
DENISE
Tcharam!
(Uma pan mostra que ela está de salto alto, vestidinho, laço no cabelo etc...)
ELE
Você vai pra uma festa ou prum caminhão?
DENISE
Pra mim, andar de caminhão é uma festa. Vamos!
Denise, sentada no volante, recebe as instruções do marido.
ELE
(ele liga o carro) Pra ligar é assim ó. Agora engata a primeira e vai soltando a
embreagem devagar. (ela solta rápido e o caminhão dá um pulo)
DENISE
Foi muito rápido?
ELE
Claro, mulher! Você não vai aprender de jeito nenhum, desse jeito!
(Obs.: Tentar dublar a voz do ator com a de Terezinha)
00:01.05.27
TEREZINHA
Você não vai aprender de jeito nenhum, desse jeito... Mas, meu filho, tenha
paciência...
ELE
Tudo bem, vamos tentar de novo. Liga o carro você, agora.
(ela liga e o limpador de pára-brisa começa a funcionar)
ELE
Não é isso...
Ela liga o rádio e toca uma música dos anos 70. Ele dá um tapa na cabeça. Ela fica desesperada e começa a mexer em todos os botões: buzina, aperta o jato de limpeza, troca a estação do rádio, acende o farol etc...
ELE
Eu desisto! Você está burra!
00:02.00.01
TEREZINHA
Ele disse que não ia me ensinar mais, que eu... Ele disse até um palavrão: você
está burra!
DENISE
Burra! Você me chamou de burra! Só por que eu sou mulher você acha que eu sou
burra?!
O narrador fala sobre o cérebro das mulheres, que possui mais células cinzas do que o do homem (precisamos de pesquisa). Outra opção é fazermos um povo fala com alguém da Fuvest, onde são aprovadas mais mulheres do que homens.
DENISE
Viu?
ELE
Tudo bem, desculpe... Vamos tentar mais uma vez.
DENISE
Tá, mas agora eu vou sem salto alto, que isso só me atrapalha. (ela joga os
sapatos pela janela)
00:04.00:18
TEREZINHA
Aí descalça, eu tinha mais controle no pé, né?
ELE
(ela gira a chave e liga o carro) Isso, começou bem. Agora engata a primeira e
solta a embreagem bem devagar.
Ela consegue. O caminhão sai andando, Denise consegue controlá-lo e vibra por estar dirigindo. O marido ainda meio desconcertado. Imagem do caminhão andando num descampado e berros de Denise, ao fundo; eufórica, por estar conseguindo. Música, etc etc (uma sugestão pode ser o tema de Bye Bye Brazil, quando o Chico fala "Bom mesmo é ter um caminhão, meu amor!").
Caminhoneiras (de preferência) falam como é bom dirigir um caminhão.
Ele está saindo, com uma bicicleta.
ELE
Terezinha, eu já tô indo.
DENISE
Que horas você volta?
ELE
Até eu resolver tudo, só chego no final da tarde.
ELE
E..., Terezinha..., será que eu posso te pedir um favor?
DENISE
Pode.
ELE
Será que dava pra você carregar o caminhão com a madeira, que quando eu voltar
eu tenho que fazer uma entrega em Oindaba das Flores...?
DENISE
Mas carregar o caminhão não é coisa de homem?
ELE
É. (percebe a mancada) Quer dizer, não! Hoje em dia não tem mais esse negócio,
Terezinha. A gente tá na década de setenta. Tchau.
DENISE
(sozinha) Bom, se uma mulher pode carregar madeira, também pode pode dirigir um
caminhão.
00:05.00:07
TEREZINHA
Carreguei o caminhão de madeira e fui pra Oindaba das flores sem ordem dele, sem
documento, sem nada...
Denise, na estrada, usa um chapéu preto e dirige ao lado de um menino de 4 anos que, subitamente, se transforma num de 16, assim que ela corrige seu relato no depoimento:
00:06.00:21
TEREZINHA (OFF)
Naquela época a gente precisava muito dinheiro pra criar oito filhos, aí eu
entrei naquela e fui, né?, mais o meu filho mais novo, mais velho, quer dizer,
desculpa...
Os dois na estrada. O filho percebe a polícia atras deles.
FILHO
Xi, mãe, é a polícia!
Denise olha para trás e vê a polícia. Sobre essa imagem, o off:
00:07.00:13
TEREZINHA (off)
Aí eu olhei pra trás e vi (editar) o carro da polícia rodoviária.
DENISE
Misericórdia, meu Deus, é a polícia rodoviária...
FILHO
Eu sou tão novo e já vou ser preso?
DENISE
Calma, é só eu mostrar a minha carteira de motorista.
FILHO
Que carteira?
DENISE
(lembrando) É mesmo, eu nunca tirei!
FILHO
Não! A gente vai pra cadeia!
DENISE
Pior só se a gente não tivesse com os documentos do caminhão.
DENISE E FILHO
(eles se olham e gritam) Não!
00:07:00.13
TEREZINHA
Ela piscou e mandou eu encostar. Aí eu encostei, aí eu com chapéu na cabeça,
ela pensava que eu era homem, né?
O caminhão estaciona. Dois jovens policiais vão até a cabine.
POLICIAL 1
Muito bem, meu senhor, pode ir descendo.
DENISE
Meu senhor, não.
POLICIAL 1
Eu tô falando com quem?
00:08.00:18
TEREZINHA
Ele falou: eu tô falando com quem? Aí eu disse: com uma mulher, aí ele disse:
mulher?! Eu disse: é, porque ele viu a voz fina, né? Aí ele disse: não, mas eu tô
pedindo o documento do carro, aí eu disse: olhe, eu estou toda errada.
DENISE
(descendo do caminhão)
Olhe, eu estou toda errada. Tô sem documento do carro e não tenho carteira. Mas
como eu confio muito nos senhores e no estudo dos senhores...
00:09.00:24
TEREZINHA
Como eu confio muito nos senhores e no estudo dos senhores, eu sei que vocês não
vão me prenderem. Aí eles disseram: mas que coragem a senhora tem. Eu falei: não,
confiar primeiro em Deus, segundo nos homens educados, né?
POLICIAL 1
Eu, educado? A senhora acha mesmo?
DENISE
É só olhar que a gente vê que são duas pessoas finas.
POLICIAL 2
Poxa, quê isso...
DENISE
É sim, dá prara perceber que os senhores tiveram uma boa família, uma boa
mãe...
POLICIAL 1
Minha mãe era maravilhosa... (começa a choramingar)
POLICIAL 2
A minha era tão linda...
DENISE
Aposto que eram...
POLICIAL 1
A senhora até parece um pouco com ela...
POLICIAL 2
Com a minha também... Se a senhora tivesse bigode era igualzinha...
DENISE
(abraçando-os) Não fiquem assim, meus filhos...
POLICIAL 1
(recompondo-se um pouco, mas ainda fungando) Já passou, já passou... Bom, a
senhora pode ir. Mas vê se tira essa carteira de motorista.
DENISE
Pode deixar, meu filho. Daqui pra frente tudo vai ser diferente.
(ela entra no caminhão e parte. Os policiais dão adeus tristemente)
00:10.00:12
TEREZINHA
Aí vim embora pra Arapiraca, né? Aí quando cheguei em casa meu marido já tinha
chegado, aí ele tava deitado
ELE
(saltando do sofá) Puxa, você me deixou preocupado!
DENISE
Eu tô bem.
ELE
E ele?
DENISE
(apontando para o filho) Tá aqui.
ELE
Não, o caminhão.
DENISE
Também tá bom.
ELE
Onde você estava?
DENISE
Em Oindaba das Flores, entregando a madeira.
ELE
Mas você nem tem carteira de motorista!
DENISE
Começo a tirar amanhã!
ELE
Pra quê?
DENISE
Pra te ajudar com o caminhão.
ELE
E nem vai me pedir permissão?
DENISE
Se eu pedir, você deixa?
ELE
Não.
DENISE
Então não vou pedir, porque assim eu faço o que eu quero, você não se sente
desobedecido e fica todo mundo feliz. Tá bom?
ELE
(pensa um pouco)
Tá, acho que tá...
Obs.: De alguma forma,seria bom indicar aqui que ele vai morrer. Talvez a câmera fique nele algum tempo e passe por fusão à cruz da sequência seguinte.
Denise, acompanhada pelo filho mais velho e de luto, coloca flores num determinado ponto da estrada, onde há uma cruz. Ao fundo, o depoimento em off:
00:11.00.24
TEREZINHA (OFF)
Aí, continuemo, rodemo ainda uns quinze anos, né? Foi quando aconteceu o
acidente, Deus permitiu que ele fosse e eu fiquei pra criar oito filhos, né?
Terezinha pinta uma placa de caminhoneiro onde está escrito "A vida só é dura para quem é mole". Os oito filhos estão lado a lado. Ela percorre os garotos, que estão do menor para o maior.
DENISE
Você vê se não faz bagunça, você cate os seus briquedos, você não esqueça
da lição de casa, você não quebre nenhuma janela, você ajude a limpar a casa,(duas
gêmeas) vocês cuidam dos pequenos e você vem comigo.
(entra na boléia e põe o chapéu) Vamos, meu filho. Vamos trabalhar.
Terezinha agora dirige o caminhão com desenvoltura, ao lado do filho mais velho. Gesto de carinho entre eles. Pequeno clipe. Vemos ela nas estradas com o depoimento em off:
00:02.00:21
TEREZINHA (off)
Era uma vida de, uma vida de luta, eu sobrevivi porque Deus é pai e a vida só é
dura pra quem é mole...
Denise, diante dos filhos mais velhos, examina seus boletins.
DENISE
Mas que porcaria de boletim?! Como é que vocês vão ser médicos com essas notas?
FILHO
Mas a gente não quer ser médico, quer ser caminhoneiro.
DENISE
Caminhoneiro. Mas isso é profissão de mulher!
FILHO
Direitos iguais, né mãe...
DENISE
(aceitando) É, tá certo...
00:04.00:27
DENISE
Nenhum deles quiseram se formar, nenhum dos meus filhos, como algum deles, foram
formado, gerado na cabine do carro, todos tiveram sangue misturado com óleo diesel, né?
Aí resultado foi que eles, nenhum quis formar.
Uma fila de caminhões estacionado na frente da casa de Denise. Uns cincos ou seis, com os filhos dentro (duas ou três filhas também). Ela vai na boléia de cada um distribuindo marmitas. Ao final da cena, os caminhões partem:
00:05.00:09
TEREZINHA (off)
Só quiseram o ramo do caminhão (EDITAR) todos são caminhoneiros.
00:04.00.09
TEREZINHA
Depois dessa vida de caminhoneiro e de toda a luta, o que sobrou foi essa família
maravilhosa, meus filhos, meus netos, minhas netas...
Denise anda de caminhão. Música ao fundo. Ela pode estar sozinha ou olhar para trás e ver uma fila de caminhões com seus filhos ao volante. Um bom som final pode ser a buzina do caminhão.
00:05.05:09
TEREZINHA(off)
Eu acho que a mulher tem que trabalhar (EDITAR/00:14.00:16) porque com o
trabalho é que a gente vai arrumar alguma coisa, eu mesmo agradeço a Deus o meu
caminhão que foi um começo de vida que Deus me deu...