Terra Papagalli

Quando larguei aquele rapazote nas praias da Ilha de Vera Cruz, digo, da Terra de Santa Cruz, digo, do Brasil, nunca poderia pensar que ele teria o destino que teve, ou seja, que se transformaria num rei, que teria tantas mulheres, que mataria tantos homens, que possuiria tantas moedas e viveria tantas aventuras.
Na verdade, meu palpite era que ele morreria dali a uns dias, certamente devorado por selvagens antropófagos. Mas, como verão os que lerem este livro, as coisas não se deram exatamente assim. Muito pelo contrário.
E, se errei minhas previsões quanto ao jovem Cosme Fernandes, hoje mais conhecido nos livros de história pela alcunha de Bacharel da Cananéia, errei ainda mais nas minhas previsões sobre a Terra Papagalli, digo, o Brasil, que achei ser um novo paraíso.
Quantos erros, meu Deus! Bem mereço estar no inferno.
Pedro Álvares Cabral (psicografado)

Editora Objetiva
2000, 192 pgs.
         


Humilde dedicatória ao conde de Ourique

        Santo Ernulfo disse que o homem é o mais faminto de todos os seres que andam sobre a Terra, pois não possui apenas a fome da boca, que se sacia com carnes e frutos da terra, mas muitas outras, cada uma vinda de uma parte do corpo:
        *dos ouvidos, vem a fome de música;
        *dos olhos, a de belas paisagens;
        *do nariz, a de bons cheiros;
        *do cano, a de mulheres;
        *da mente, a de sabedoria, e
        *da alma, a de Deus.
        Caso seja isto verdade, senhor conde, estes meus escritos esperam saciar, ao menos, três de vossas fomes. A primeira, e mais importante, será a fome de Deus, pois aqui tereis provas da grande bendição que cai sobre aqueles que crêem na sua força e no seu poder, armas tão necessárias como a faca e a espada para quem teve a desgraça de passar por confins tão ferozes quanto desconhecidos.
        A segunda será a fome dos olhos. É certo que não haverá neste livro nenhum desenho, mapa ou mesmo rabisco, mas, usando minhas palavras como pincel, pintarei alguns homens, vários animais e uns tantos costumes de ultramar.
        Por fim, espero ainda fartar a fome da vossa mente, que com certeza muito anseia pelas singularidades do mundo e pelas novidades dos povos. E digo que não vos servirei descabidas mentiras e gigantescos exageros, como fazem alguns escritores pensando em tirar o dinheiro dos tolos, mas antes alimentarei vossa mente com fatos verdadeiros que, por serem reais, nos atiçam mais a curiosidade que a mais fantástica das lendas.
        Antes de encerrar, sinto-me ainda na obrigação de citar outra vez o grande Ernulfo, que disse que os erros são tragédia para quem os comete e comédia para quem deles ouve falar. Portanto, ride das minhas aflições e aprendei com elas.

        Do humilde servidor e criado que beija vossas nobres mãos e vossos augustos pés,

        Desta vila de Buenos Aires, hoje, 17 de abril da Era do Senhor de 1536.

Cosme Fernandes,
dito Bacharel


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